
3 de Fevereiro de 1927
Há 80 anos, no Porto, deu-se a primeira revolta a sério contra o regime saído do 28 de Maio de 1926. O movimento foi contido. As movimentações de tropas, tendo motivações políticas por parte de quem as decidia, fazia-se no terreno por homens que tinham da condição militar uma inabalável postura no cumprimento do dever. Maria Manuela Cruzeiro, depois de recolher horas e horas de depoimentos dos intervenientes no 25 de Abril, notou o mesmo.
A 3 de Fevereiro de 1927, o meu avô materno, capitão Eduardo de Albuquerque, republicano convicto, tendo recebido ordens nesse sentido, comandou uma coluna militar que desceu a Serra do Pilar e, enfrentando o fogo disparado da margem norte, atravessou o Douro através da ponte D. Luís conseguindo entrar no Porto e dominar a revolta.
Há notícias de como sangrento foi este embate.
Li há poucos anos uma carta que lhe foi dirigida elogiando a sua bravura no feito. Para ele não tinha sido mais do que o cumprimento do dever. Não podia ser de outra forma. Acabara de ajudar a manter um regime político que, mal ele sabia, quase toda a família viria a combater e, parte dela, a sofrer-lhe as consequências.
Nessa noite, na sua casa de Santa Clara, em Coimbra, a minha avó, sem acesso à informação sobre o que realmente se passava, desesperava. Alguém lhe disse que um "praça" que o acompanhara, tinha casa no Almegue. Procurou-o, acompanhada pela minha tia Mi, e foi encontrá-lo acabado de chegar do Porto : "... esteja descansada, deixei há pouco o meu capitão são e salvo, de botas descalçadas, a descansar em Campanhã".
E foi assim, como um pesadelo que passara, que terminou o 3 de Fevereiro para a família da minha mãe. Afinal, ia começar tudo.
Para mim é um fascinante mistério o facto de vários membros da família terem cruzado assim a História. De outra forma, essa mais trágica, já o meu bisavô, pai da minha avó, está escondido algures na nossa História por alturas do regicídio.
Talvez fique para um próximo capítulo (post).