Pouco
para dizer, muito para escutar, tudo para sentir. A propósito
do programa de rádio
ÍNTIMA FRACÇÃO
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3.1.06
Desenho do sonho na noite de 31 Dezembro para 1 de Janeiro 2006. (Hipertexto com música)

Adormeci na manhã de Natal, sobre peles e embalado numa carruagem puxada por dois cavalos brancos. Por entre campos cobertos de neve, a carruagem avança cortando o vento gelado. Ao longe, uma música de crianças que ninguém ouvia. Explodem fogos-de-artifício. Entro no lobby do hotel. Burt Bacharach toca com os Posies. Porquê? " O que o mundo precisa agora é de amor". Alguém liga a televisão. As headlines da CNN. Uma reportagem na Patagónia leva-me a descobrir uma criança chamada Jack. O miúdo passa o tempo a ver filmes do Tati e a reinventar a história da Branca de Neve e dos Sete Magníficos. Canso-me. Desço as escadas. Saio. Para onde ? Um satélite cruza o céu. Será o satélite do amor ? O mesmo, mas com outras cores. Volta o fogo-de-artifício. Gente de boca aberta e de olhar oblíquio acima de 60º da linha do horizonte. Estou sózinho ou estou com eles ? O que faço nesta noite de fim-do-ano ? Ouvir o relato de como é a lua, feito ... na própria lua ? Longe. Longe de mais. As palavras são como punhais, mas o silêncio corta-me duas vezes mais. Antes de começar, já sangro, de joelhos diante da mulher fatal. Fujo para o lobby e abro o computador por um breve interlúdio. Saio. No bar do último andar, vejo ao longe a cidade. "Paz e tranquilidade na Terra". Correcto. "Siga em frente". O telefone toca no quarto. Enquanto abro uma coca-cola e como batatas fritas, é meia-noite e um inglês alcoolizado grita-me : "Happy new year ! ". Quando saio para o frio da varanda, o japonês do quarto ao lado faz-me vénias e, suponho, discursa sobre o novo ano. No telhado em frente tocam os U2. Ao fundo, estalam as centelhas luminosas da noite escura. Finalmente não somos ninguém. O relógio bateu doze badaladas. O som esculpiu-se no espaço. Um azul mentol (ou mental ?) volteia como uma nova valsa no escuro da noite. Acordo vagamente na carruagem, para adormecer logo de novo. Afinal, desço as escadas até ao eco da pequena multidão em conversa de algazarra. Lá fora, a música sai alta das janelas de um automóvel. Estoiram de novo fogos-de-artifício. Acordo, embalado pela Radetzky Marsch de Strauss, são já 11.15 da manhã de domingo, 1 de Janeiro, em Musikverein, Großer Saal. Bato palmas a compasso. Não entendo por que razão os fogos-de-artifício continuam. Eu apenas bato palmas a compasso, como toda a gente. Ao longe, ainda rebentam lágrimas coloridas nos céus do mundo.

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Francisco em 3.1.06
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